Doutora, meu filho não come nada!

Doutora, meu filho não come nada!

“Doutora, meu filho não come nada!”. Esta é uma das reclamações que, como pediatra, mais ouço no consultório. A falta de apetite pode ter origem nos mais diversos fatores. Contudo, pesquisas recentes têm demonstrado que há um vínculo importante entre o desenvolvimento dos mecanismos de fome e saciedade e o modo como ocorreu a transição alimentar(processo de complementação do leite materno com outros alimentos), que é uma fase importantíssima do desenvolvimento. É durante essa fase que são estabelecidas as preferências alimentares futuras.

A transição alimentar mudou muito nos últimos tempos. Até o início da década de 1950, a mulher ficava em casa e tinhamais tempo para cuidar dos filhos. As crianças eram amamentadas exclusivamente no seio materno por um ano ou mais, e a introdução de outros alimentos da família ocorria devagar e naturalmente, à medida que a mãe percebia a necessidade da criança.

Com a entrada da mulher no mercado de trabalho, ela passou a ter menos tempo para se dedicar à transição alimentar. Surgiram no comércio as papinhas e preparados de cereais prontos, para serem dados com colher, sob o argumento de que são muito práticos e satisfazem todas as necessidades nutricionais da criança. Com isso, os pequenos aprendem a desprezar alimentos naturais em favor dos industrializados.Dessa forma, quando crescem, dificilmente comem frutas e verduras. Dão preferência a doces e salgadinhos, e acabam sofrendo de diabetes, obesidade, hipertensãoe outras doenças relacionadas à alimentação incorreta.

Assim, algumas pesquisadoras do Reino Unido e da Nova Zelândia, lideradas pela inglesa Gill Rapley, têm defendido um retorno às origens da transição alimentar. Elas propõem que os alimentos da dieta da família sejam colocados ao alcance das mãos do bebê, de modo que ele mesmo os coloque na boca ou fique livre para fazer deles o que quiser. É a transição alimentar liderada pelo bebê, mais conhecida pela sigla em inglês BLW (baby-ledweaning).

No método BLW, os alimentos são selecionados, cozidos e cortados em porções do tamanho do punho da criança, se possível com talos a fim de facilitar que obebê os apanhe com as próprias mãos. Em seguida, são colocados ao alcance do bebê. Ele pode fazer o que quiser com a comida, e geralmente a esfrega no corpo ou a atira no chão, para só depois colocar na boca e mastigar. O processo deve ser realizado enquanto toda a família está reunida à mesa, a fim de que o bebê aprenda a comer vendo os outros, por imitação.

O BLW pode apresentar muitas vantagens em relação à alimentação tradicional com colher. Como é o bebê quem está no controle da alimentação, não há risco de comer demais. Com isso, a sensação de saciedade é desenvolvida bem cedo, perdura por toda a vida e previnea obesidade.Além disso, o modo de oferecer a comida favorece a introdução de frutas, verduras e legumes e impede na prática a oferta de alimentos industrializados, geralmente desenvolvidos para serem dados com colher.

A textura e o gosto dos alimentos não ficam comprometidas, como nas papas;despertam mais profundamente as sensações gustativas, e tornama alimentação mais prazerosae saudável. É menos provável que a criança que adotou o método BLW se negue a comer alguns alimentos. O BLW também aprofunda o relacionamento durante as refeições familiares, promove a autonomia da criança e pode encorajar os próprios pais a adotarem dietas mais saudáveis para toda a família.

A Sociedade Brasileira de Pediatria ainda não preconiza o método mas, com a difusão de informações promovida pela internet, muitos pais e cuidadores já aplicam o BLW. Pesquisas recentes sugerem que, quando corretamente realizado e com orientação de um profissional , o método não favorece o engasgamento. Além disso, os pais devem sempre oferecer alimentos ricos em ferro, como carne, para evitar deficiências.

O BLW não é recomendado para crianças menores de 6 meses ou que tenham alguma anormalidade no desenvolvimentoneuropsicomotor. Sua aplicação deve ser suspensa quando o bebê estiver doente, febril ou ferido. E, seja qual for o método adotado, um adulto deve sempre supervisionar a alimentação do bebê. Apenas um profissional de saúde poderá orientar os pais corretamente quanto à forma de introdução alimentar.

Ressalta-se que o mercado da nutrição e dos alimentos infantis tem se tornadobastante apelativo ao consumo exagerado. Assim, é preciso orientar os pacientes a rejeitar hábitos nutricionais consumistas e ter prudência na alimentação das crianças. É importantíssimo que, em qualquer cenário, os pais sejam conscientizados acerca da necessidade de prover uma dieta nutricionalmente balanceada.

Os pais e cuidadores, antes de adotar o BLW ou de iniciar a transição alimentar, devemconsultarum pediatra. Suas dicas e orientações poderão facilitar muito o processo de alimentação do seu filho, sempre visando à saúde e à segurança. Uma alimentação saudável assegura à criança crescimento adequado, o funcionamento devido do corpo e ajuda a prevenir doenças crônicas no futuro.

A publicação das fotos foi autorizada pelas mães!

Dra. Paula Cardoso
Pediatra

Fonte: Coluna VIP Tocantins

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